07
fev
12

Entrevista com um dos criadores do novo uniforme do Brasil

Já que no post anterior etavamos falando de Seleção Brasileira, vamos emendar o assunto apresentando uma entrevista bem especial com um dos designers do novo uniforme da Seleção Brasileira, o ilustrador Fernando Torelly:
Fernando, como surgiu a idéia de você desenhar o uniforme da seleção brasileira?
Eu já havia trabalhado em outros projetos da Nike. Essa seria a primeira camisa que envolveria um artista brasileiro. A Nike contatou a Galeria Choque Cultural, com quem no passado eles já haviam trabalhado (Coleção Canarinho e outros projetos). Portanto foi uma honra para mim, dada a quantidade de bons artistas que eles têm em seu time.      
Qual foi sua principal inspiração e como você pôs isso em prática? Usou alguma referência de algo que já tinha visto antes?
Eu cheguei para trabalhar com duas coisas na cabeça: o trabalho maravilhoso que a Umbro tem feito com seu Taylored by e a camisa que a Nike fez para a seleção da França. Eu queria muito uma gola pólo, e a manga da camisa francesa tinha essa sacada genial. Minha primeira frustração foi saber que nossos jogadores costumam reclamar da gola pólo, mas consegui levar minhas ideias de aliar elegância ao lance da arte nativa
Você projetou tudo direto no computador ou recorreu primeiro ao clássico recursos dos rascunhos à mão?
Bom, para deixar claro eu não trabalhei sozinho. O Eduardo Saretta e o Haroldo Paranhos, da Galeria Choque Cultural, que viabilizaram tudo. Foram eles que, em primeiro lugar, me colocaram na Coleção Canarinho, também da Nike. Passei cerca de duas semanas me encontrando com um designer da Nike. Foi interessante pois certas coisas eu não fazia a mínima idéia de como funcionava, como, por exemplo, o fato daquele efeito espelhado (hot stamped? me corrija por favor) não funcionar bem na cor amarela. Era um terreno completamente novo pra mim, que até então só dava palpite no trabalho dos outros. Pesquisei muita coisa arte nativa brasileira. Me perguntei: se tantas seleções já haviam trazido sua arte para suas camisas (como México, Escócia, Rússia etc.) por que não nós? Tentei ao máximo fugir do ufanismo, do lugar comum, do mito das três raças. Mas na camisa da CBF não há muito espaço para criar, qualquer mudança gera críticas. Se eu redesenhasse a bandeira nacional, não teria tanta gente reclamando. 
Eu desenhei quase tudo à mão, apesar de usar o Photoshop para fazer ajustes.
Do tempo do convite até a entrega dos desenhos finalizados levou quanto tempo?
Tive mais ou menos um mês para trabalhar pessoalmente com o designer e o pessoal do marketing e mais outro mês para acertar as pontas. Na realidade, só fui ver a camisa pronta um pouco antes dela ser lançada.  
 
Porque você preferiu abolir o short branco do uniforme reserva?
Eu só trabalhei nas camisas home e away, nem sei como ficou a de goleiro. Eu cheguei a fazer algo para os shorts, mas creio que foi rejeitado. E confesso que se for pra escolher entre limar um dos shorts, que seja o branco. Melhor um uniforme todo azul do que o Brasil vestido igual a um ovo cozido. Só para completar, baseado no que vi nos últimos jogos, acho difícil até mesmo vermos o Brasil com o uniforme away. 
A idéia da manga com faixa grossa foi sua?
Eu queria muito uma gola pólo, e a manga da camisa francesa tinha essa sacada genial do vermelho na parte interna. A polêmica sobre a manga é que as pessoas ainda não entenderam o conceito. Ela é para ser dobrada, não ficará tão grossa assim.

(Se sim) Podemos dizer que a do Internacional acabou também tendo um dedo do seu trabalho?

Rapaz, minha namorada e toda a minha família no Sul é gremista, não me meta em confusão.  
 

Por que da sua opção de manter os detalhes em amarelo no uniforme azul?
Não foi minha opção, eu mesmo queria o branco de volta. Acho que essa dança de cores é para países sem grande tradição ou reservada à terceira camisa. Eu até pensei em botar ambas as cores, mas como já disse, eu era só uma da pessoas no projeto. Há um longo caminho entre minhas idéias e o produto final, que passa por áreas da qual não tenho conhecimento. Meu trabalho no fim é muito solitário. Sei do que gosto e não do que o mercado pede.
As fontes e numeração que serão usadas tambem foram criação sua?
Realmente não sei, cheguei a fazer uma letras e números mas que só foram usadas nas peças de torcedores. Elas foram baseadas nos símbolos dos índios cadiveu. Sinceramente agradeço por isso não ter rolado, não sou tipógrafo, e isso engloba toda uma ciência. Graças a Deus não ofendi ninguém com minhas linhas tortas.
Além dos uniformes de jogo, alguns outros artigos da coleção tiveram sua assinatura?
Eu trabalhei na linha para o torcedor. Nela, meu trabalho como ilustrador fica mais evidente. Fiz cerca de 5 ilustrações.
Você teve alguma dificuldade na hora de propor os modelos, uma vez que é sabido que a CBF é bastante restritiva no que se refere ao design do uniforme?
Isso é um assunto entre o fornecedor e a CBF. É evidente que existem diversas modificações que o estatuto da CBF proíbe e que, de certo modo, acho certas.  Outras esbarram na própria FIFA. Duas coisas que gostaria de ter feito era tirar o “Brasil” escrito abaixo do escudo, o que acho extremamente redundante, e a outra era um terceiro uniforme branco, mas parece que esse dois itens são inegociáveis.  
Além desses modelos apresentados, houve mais outros modelos propostos que não foram aresentados? Se sim, quantos até chegar ao modelo ideal?
Tiveram vários modelos, não me lembro quantos.  Mas a o resultado final tinha muito do conceito original, como se fosse uma evolução direta e acho que é esse o grande mérito do projeto. Houve uma unidade de idéias desde o início.
Há alguma coisa que você olhou nessa coleção e pensou: “poxa, eles executaram tudo dferente!?
Lembra de um episódio dos Simpsons que o Homer desenha um carro como ele queria e leva a empresa do irmão à falencia? É mais ou menos por aí. Existem razões para determinadas mudanças que vão além da minha mente de ilustrador e de palpiteiro. Como disse anteriormente, as linhas gerais foram mantidas e isso que importa.
Desde que foi divulgada a sua autoria do novo uniforme na seleção, alguma coisa mudou na sua vida no que se refere ao assedio das pessoas? E em relação à algumas críticas recebidas ao novo uniforme, algo à dizer sobre isso?
Mais uma vez, não sou o autor, não tem Fernando Torelly assinado nela. Fico grato e honrado de ter participado do projeto. 
Meu nome não agrega valor à camisa. Na realidade é o inverso.  Assédio vem só dos amigos, que me criam uma zona de conforto melhor do que morfina.
Uma vez que você mora no Rio, e o evento de lançamento foi na mesma cidade, você foi convidado à comparecer lá?
O evento foi só para imprensa.
 Alguma excusa recebida em nome da Nike?
Eu tenho uma boa relação com todos da Nike, sempre são gentis e atenciosos comigo, valorizam meu trabalho e me atrevo a falar que foram as melhores clientes que tive na vida, tanto na educação quanto no reconhecimento do meu ofício.
Houve alguma menção a seu nome lá?
Não tenho essa informação.
À propósito, já tá com seus exemplares em mãos e desfilando com eles por aí?
Deve chegar essa semana aí.  
Depois dessa experiencia de sair do ramo da ilustração diretamente pra projetar o uniforme da seleção brasileira, você acabou tomando gosto pela coisa e se interessando em desenhar mais uniformes esportivos ou isso foi um caso excepcional?
Sempre gostei de uniformes (seja de futebol, militar ou escolar) mas sempre quis trabalhar para o mercado editorial e para o mercado de skateboard, uma das minhas grandes paixões, no qual não tive muito sucesso até agora. Comparo essa situação ao homem que sonha ser rei mas se torna papa, algo muito maior, único mas completamente diferente de suas ambições. 
Há alguma possibilidade de você continuar desenhando o uniforme para as proximas temporadas? 
Estou aberto para qualquer projeto que me convidem, não necessariamente seleção ou futebol, mas confesso que  desejo mesmo é trabalhar com skate.
Qual o seu time do coração?
America Football Club
Existe algo que você mudaria no uniforme atual do América?
Acho que existem outras coisas mais importantes a serem mudadas no America do que o uniforme. Mas não tem como errar ali: camisa toda vermelha sangue, sem nenhum detalhe branco, shorts brancos e a clássica meia listrada que não estava no uniforme original, mas que eu, particularmente, curto muito.
Agora que você é conhecido como “o cara que desenhou o uniforme da seleção brasileira” e tá cheio de moral, gostaria de desenhar o futuro uniforme deles? Já foi feito algum contato entre você e o clube?
Sinceramente, se fizesse algo pelo America seria por amor. Se me pedissem faria de graça, minha modesta contribuição ao clube.
Impressionante como nem mesmo tendo torcedores ganhando um bom destaque ultimamente ( você e o Escobar), o América insiste em ignorar alguma apoio…
Concordo. Sempre disse e insisto que o America tem um potencial monstruoso, o carinho dos  torcedores de outros clubes, apoio da imprensa (eu já vi muitos torcedores de clubes do mesmo porte reclamarem disso). Enfim, o America é uma marca de fácil aceitação. Sempre penso que cometer erros é um aprendizado, mas insistir neles é burrice. É claro que o America foi prejudicado no passado, mas isso já faz 25 anos, não dá para passar a vida chorando ou dando desculpas. Mal comparando, a Lusa é o America de São Paulo: também foi muito sacaneada, dividiu seu único título estadual com o Santos e olha ela aí se reinvetando, de volta à primeira divisão. Falta vontade e falta visão ao America. Já não é uma questão de criticar a estrutura de como o futebol é conduzido no Brasil.  
Já possui algum projeto futuro em andamento, independente de ser do ramo esportivo?
Por fim consegui enganchar um projeto no skate, graças ao meu amigo, colega, irmão e mentor Felipe Motta e ao Uriah Ruta, que me convidou para fazer a arte de três madeiras para a Uprise, sua skateshop em Chicago.  
Onde podemos conhecer mais do seu trabalho?
Como considerações finais, alguma coisa mais a acrescentar?
Gostaria de agradecer pelo espaço, é uma honra responder as perguntas (perguntas essas extremamente pertinentes) de um amigo e colega de longa data. Me desculpem se fui prolixo, esse é um dos meu inúmeros defeitos.
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5 Responses to “Entrevista com um dos criadores do novo uniforme do Brasil”


  1. 8 fevereiro, 2012 às 3:00 am

    Muito boa a entrevista, parabéns. Para aficcionados em camisas como nós, é sempre bom saber o conceito de quem a desenhou.

  2. 8 fevereiro, 2012 às 7:13 pm

    Parabens pela entrevista!

  3. 11 fevereiro, 2012 às 8:31 pm

    Excelente entrevista!
    É muito bom conhecer os conceitos por trás do uniforme e meio chato saber que poderíamos ter uma camisa polo classuda e não temos “porque os jogadores não gostam”…
    Também é bacana saber que a manga foi criada para ser dobrada (apesar de achar que ela ficaria meio curta assim).
    Espero que a Nike continue convidando brasileiros para desenhar a camisa da seleção, ajuda a dar personalidade a ela, coisa da qual sinto falta desde 1998!

  4. 5 Carlos H.
    13 fevereiro, 2012 às 2:14 am

    Sei lá, o desenho da camisa é praticamente igual a do Boca Juniors, esse negócio de conceito pra mim é balela, deve ter uma americano que desenha tudo e manda todo mundo engolir o que foi feito, resultado mais uma camisa do Brasil que não tem nem 10% do potencial.
    Pelo visto o trabalho do Fernando será visto nas peças de torcedor, além da parte interna próxima a gola.


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Esse blog é dedicado à todo tipo de roupa que tenha algo relacionado à esporte, do Cricket ao Futebol Gaélico. Esporadicamente postarei algo de StreetWear quando interessante.
Carioca, 28 anos, colecionador de sportwear há pelo menos 13 anos e cursando o 2o. ano de Moda da Universidade Cândido Mendes(RJ). Não me limito à colecionar peças de futebol apenas. Já que meu foco é antes de tudo a estética da roupa e a "wearability" (além da história e preço da peça), me intesso por uniformes de Rugby, Polo Eqüestre, Basquete, Volleyball, Hockey, Cricket, Futebol Australiano ,Futebol Gaélico e qualquer outro esporte que inventarem e tiver um uniforme bonito pra se usar por aí...
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